Ele não me ouve

Codependência emocional ou amar sem limites?

Escrevo aqui sobre relacionamentos amorosos, mas na verdade a dinâmica da codependência emocional ou codependência afetiva pode se manifestar em qualquer tipo de relação: entre pais e filhos, entre irmãos, entre amigos, em relações profissionais…  Digo isso porque você pode ler esse texto em quaisquer desses contextos, basta trocar  “ele” pelo nome da sua “pessoa-problema“.

Você, na relação

Você dá apoio, segura as crises, cuida do que ele não consegue cuidar. Você assume responsabilidades que ele deixa para trás e muitas vezes, isso pode incluir assumir todas as responsabilidades financeiras da família. 

Por fora, parece que você é a fortaleza do relacionamento, mas, com o passar dos anos, você se sente usada, sugada e/ou vazia

O parceiro, o problema

Ele pode ser imaturo, instável, confuso, “eternamente sonhador”, o empreendedor que tem um projeto que nunca emplaca, mulherengo. Ele pode gastar todo o dinheiro que ganha em jogos de apostas ou até ser dependente de alguma substância como álcool ou drogas. 

A dinâmica

Você acredita que todos os seus problemas acabarão quando ele mudar. Quando ele se tornar a pessoa que você vê que ele poderia ser se… Ou quando o “problema de estimação” não existir mais entre vocês. Mas ele não te ouve! Então, o que você faz?

Você se esforça mais um pouco em tentar prever o que vai acontecer e tentar evitar. Em esconder as falhas dele, em manter segredos, mesmo quando se sinte humilhada por permancer ao lado dele. Você faz vista grossa. Você justifica. Tenta controlar, vigiar, se antecipar. Você dobra no trabalho, consegue outro emprego… Faz tudo isso porque tem certeza que ele vai mudar. Basta você ser paciente, compreensiva e cuidadosa o suficiente, que ele vai perceber o seu valor e reconhecer tudo o que você faz por ele.

Então, você alimenta as suas esperanças. E você continua tentando. A cada tentativa frustrada você se sente ainda mais invisível, desrespeitada, ignorada… Você vai se tornando dura, ressentida e raivosa. 

A raiva que você sente parece ser raiva dele. Ele faz você se sentir assim: raivosa, estressa, amargurada… Agora, você já começa a ter problemas no intestino ou estômago, crises de ansiedade com estados depressivos, crises de pânico… Já não dorme bem.

Só que talvez vocês já estejam casados há, 5, 10, 20, 30, anos e esse dia nunca chegou. Ele não mudou. 

Talvez vocês já tenham tentado se separar, mas ele implorou e você voltou, talvez ainda não. Provavelmente você se pergunte isso há tempos, ou essa fase tenha começado há pouco:

“Por quê eu não me separo?”

“Por quê não coloco ele pra fora?”

“Por quê estou há tanto tempo suportando tudo isso?”

“Ou por quê não vou embora, simplesmente?”

E o medo – ou pânico – toma você nesse momento… Seu coração dispara, o peito aperta, a visão turva e pode ser que falte o ar.

“Tenho os filhos, tem o imóvel, tem o carro, tudo que já temos juntos…”

“E ele não vai conseguir viver sem mim. Sou eu quem faço tudo por ele.”

“Como ele vai ficar? Não posso fazer isso com ele… Ele é o pai dos meus filhos!”

Tem isso, tem aquilo, tem aquilo outro. Um milhão de motivos do lado de fora que impeçam você de se perceber, de se cuidar, de se priorizar, de dar limites, de colocar um ponto final.

O ponto cego

O que poucos sabem e você provavelmente não é: nada vai mudar enquanto você entrar na terapia, se já fizer, e ficar falando dele, dele e dele. Que a sua angústia só vai aumentar se você continuar buscando explicações ou soluções pro comportamento dele no Youtube… 

A dor que você sente não nasce nele ou nessa relação. O medo de ficar sozinha ou ser abandonada precisa ser reconhecido, validado e acolhido por você. A raiva que você sente não é dele. É de si mesma por se permitir ser abusada. 

Você acredita que sente o que sente por causa dele, dos comportamentos dele, do que ele fala pra você, mas essa dor e esse sofrimento nascem em você. Nasceram em você, durante os primeiros anos da sua infância.

Você cresceu em um lar onde sentimentos não eram expressados, problemas não eram resolvidos e você não podia “dar trabalho” porque havia alguém que precisava da atenção de todos e era muito mais importante do que você. Nesse ambiente, você aprendeu cedo que amor se conquista sendo útil, indispensável e insubstituível

Hoje, esse padrão se manifesta nas suas relações e muito mais profundamente do que isso. Também se manifesta na sua personalidade e faz com que você busque se sentir suficientemente amada como desejava/deseja ser amada por sua mãe e/ou seu pai. mas isso também não vai acontecer.

A codependência emocional acontece quando você depende da dependência do outro para se sentir segura – amada por ser útil.  Quando você precisa que ele precise de você, pra garantir que ele não vá embora. Você então, se sentirá segura. Você acredita que já que seus pais não te amaram da forma como você precisava, que então não é digna de ser amada por quem você é e então se esforça para ser suficiente e merecer o amor.

É por isso que você assume responsabilidades que não são suas. É por isso que você se doa até o limite – e muitas vezes, além do limite. É por isso que acredita que é responsável por como o outro vai se sentir. É por isso que não consegue acolher suas próprias necessidades, é por isso que aceita migalhas. E é por isso que ainda não foi embora: porque acredita que não conseguirá ninguém mais pra ficar com você. E é por isso que, quando ele falha, você se culpa — e tenta compensar se esforçando cada vez mais, acreditando que talvez, dessa vez, ele veja você.

A “fome de amor” disfarçada de amor desmedido

O amor verdadeiro acolhe, sustenta e equilibra.  A codependência emocional, ao contrário, exige que você carregue o peso da relação sozinha em troca de não ser abandonada, rejeitada. É melhor acreditar que tudo depende de você do que acreditar que você não tem controle nenhum sobre a relação e sobre ele resolver ficar ou ir embora.

E o preço que você paga é alto:

  • Culpa crônica — como se nunca fosse suficiente.
  • Ansiedade relacional — medo constante de perder o outro.
  • Vazio afetivo — sensação de desaparecer dentro da relação.
  • Autocrítica severa — acreditar que, se o outro não melhora, é porque você falhou.

Não é amor. É sacrifício. É o papel que você aprendeu a desempenhar na sua infância e é esse falso self que você desenvolveu se tornando quem a sua família precisasse que você fosse. desespero por ser amada mascarado de cuidado. Não é sobre o outro, é sobre o valor que não vê em si mesma.

No fundo, no fundo, se você avaliar bem, existe uma necessidade: de ser vista, validada, de se sentir segura – de se sentir amada. 

Você acredita que ama demais, mas, na prática, é você faz um esforço gigantesco – que o outro não te pede, muito menos te obriga – mas você faz, mesmo se sentindo sobrecarregada, usada, abusada.

Talvez seja muito difícil pra você admitir que você deseja se sentir amada e precise disso, mas a verdade é que essa é a sua libertação

Eu sei que essa ferida infantil dói demais e que você aprendeu a ser essa fortaleza para se proteger.

Desde cedo, você engoliu o choro, segurou as pontas, se tornou “a responsável”. Essa foi a forma que você encontrou para sobreviver em um lar onde não recebeu o amor que precisava.

Só que hoje, essa fortaleza virou prisão.

Por trás dela, existe uma mulher exausta de fazer de tudo para se sentir amada – ter suas necessidades emocionais atendidas. Uma mulher que a cada dia mais se torna mais desconectada de si mesma por medo de ser rejeitada, abandonada ou ficar sozinha, que também não consegue mais se alegrar com a vida e vai perdendo o sentido de tudo…

Esse amor que você sente falta e dilacera o seu coração na verdade não é do amor dele. O amor vindo dele nunca será o suficiente pra preencher esse vazio em você. Não é desse amor que você sente fome na alma, é do amor da mamãe e/ou do papai.

Existe saída e ela começa em você

O primeiro passo é reconhecer que existe um padrão nos seus relacionamentos. E que existe um falso self que atua nessas relações. dor tem nome: codependência emocional.
Ela não é a sua identidade.
É um padrão aprendido, repetido e reforçado ao longo da vida.

E padrões podem ser interrompidos.
Não pelo outro mudando, mas por você escolhendo não se perder mais dentro da relação.

E se o amor que você tanto procura no outro for, na verdade, a versão de si mesma que você perdeu tentando agradar?

E se ser amada não depender de carregar ninguém, mas de se permitir ser inteira?

Você não precisa seguir nesse ciclo sozinha.
Se esse texto fez sentido para você, respire fundo: esse pode ser o início de um caminho novo.

Quando estiver pronta para conversar, estou aqui.

Com amor, Camila 🌷

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Camila Brito

Psicoterapeuta há mais de 7 anos, possuo sólida formação, trajetória profissional enriquecedora e experiência consolidada no atendimento à adultos e adolescentes a partir dos 17 anos. Tudo isso se traduz em valioso diferencial para quem busca apoio emocional profissional de qualidade.

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