Talvez a fome seja uma forma de pedir colo…
Há dias em que você come sem fome.
O corpo busca algo que o alimento não entrega: aconchego, alívio, silêncio.
E por alguns minutos, comer parece resolver — anestesia o que dói, preenche o que falta.
Mas logo depois vem o vazio.
A culpa, a vergonha, a raiva.
E o mesmo ciclo se repete: você se sente fraca, tenta compensar, promete que “agora vai ser diferente”.
Mas a dor volta. Porque o que falta não é comida. É acolhimento, escuta, cuidado.
O corpo fala o que a mente não teve recurso para elaborar
A psicotraumatologia mostra que o trauma não se guarda na memória, mas no corpo.
Peter Levine, em Uma Voz sem Palavras (1997), descreve o corpo como o lugar onde o trauma fica “preso no tempo”, tentando completar o movimento interrompido da sobrevivência.
E o palco mais sensível dessa tentativa é o sistema gastrointestinal — nosso segundo cérebro.
Estudos em neurogastroenterologia (Mayer et al., 2015; Carabotti et al., 2015) revelam que o intestino e o cérebro estão em comunicação constante.
Quando há trauma, o sistema nervoso autônomo permanece em alerta.
O intestino responde com lentidão, contrações, alterações hormonais — e, junto, surgem sintomas emocionais: ansiedade, compulsão, sensação de vazio.
O corpo, desregulado, confunde emoções com sensações viscerais.
A angústia parece fome.
A carência parece apetite.
E o alimento vira uma tentativa de voltar ao eixo.
A origem da fome emocional: o corpo que cresceu sem cuidado
A fome emocional nasce cedo — nas infâncias em que o afeto era escasso, o olhar era distante e o toque, ausente.
Traumas de desenvolvimento (Schore, 2001; Siegel, 2012) deixam marcas invisíveis: o corpo aprende a sobreviver sem presença.
E a criança, que não teve quem a acalmasse, aprende a se calar — a conter o sentir no próprio corpo.
Na vida adulta, o alimento assume a função de colo.
A comida conforta onde o vínculo falhou.
O estômago tenta digerir o que o coração nunca pôde elaborar.
E a fome, nesse contexto, é apenas a lembrança de um afeto que faltou.
Depois que eu como eu sinto como se fosse um abraço que me envolve toda.
O ciclo vicioso: culpa, vergonha e autopunição (raiva)
Depois da compulsão, o corpo sente culpa.
A mente se enche de frases duras: “Você estragou tudo de novo”, “Você não tem controle”.
E então vem a vergonha, o nojo, o desejo de se punir.
Este é o ciclo do trauma em ação — o mesmo que começou na infância quando amor e dor se misturaram.
Van der Kolk (2014) e Patrick Carnes (1991) descrevem como a culpa e a vergonha funcionam como “eco emocional” do abuso ou da negligência precoce.
O cérebro repete o padrão para tentar resolvê-lo: culpa → vergonha → raiva → autopunição.
Cada episódio de compulsão reforça a crença de não merecimento.
Cada promessa de controle reforça a sensação de fracasso.
E o corpo, tentando aliviar o peso da dor, volta ao alimento como refúgio.
É um ciclo de sobrevivência, não de fraqueza, de um corpo que não desenvolveu recursos internos para lidar com algo que foi esmagador para sua identidade em formação, na infância.
O intestino como memória emocional
O intestino é o primeiro órgão a se formar e o último a esquecer.
Ele guarda a memória visceral do vínculo — literalmente.
Quando há trauma, o processo digestivo e o emocional se confundem.
O corpo tenta digerir aquilo que, no passado, foi indigerível: a ausência, o medo, a solidão.
Levine chama isso de energia congelada: respostas de defesa (fuga, luta, colapso) que nunca puderam ser completadas.
A compulsão é um modo de tentar liberar essa energia sem risco de sentir.
Mas o alívio é momentâneo — e o corpo continua pedindo escuta, acolhimento, cuidado, não comida.
A virada: escutar o corpo, não puni-lo
A cura começa quando o corpo deixa de ser o inimigo.
Quando a comida deixa de ser um campo de batalha e volta a ser cuidado.
A psicoterapia somática — como a Somatic Experiencing® (Levine, 2010) ou os modelos baseados na Teoria Polivagal (Porges, 2018) — propõe exatamente isso: restaurar a sensação de segurança no corpo.
Quando o sistema nervoso se regula, o corpo começa a distinguir:
“Isto é fome.”
“Isto é tristeza.”
“Isto é medo.”
E, pela primeira vez, a alimentação deixa de ser uma forma de sobrevivência e se torna um ato de presença.
O vazio pede presença, não punição
Você não está errada por buscar conforto na comida.
Você está tentando sobreviver à ausência de algo que, um dia, deveria ter estado lá: presença, colo, vínculo.
A culpa, a vergonha e o desejo de punição são as vozes antigas do trauma — mas elas podem ser compreendidas, não repetidas.
O corpo não quer castigo. Quer escuta.
E quando essa escuta acontece, o alimento deixa de ser anestesia — e o vazio deixa de ser inimigo.
Ele se transforma em espaço de reconexão.
Essa reflexão é um convite: escute o que seu corpo está tentando dizer
Se você se reconhece nesse ciclo de fome, culpa e autopunição, talvez seu corpo esteja pedindo algo mais profundo do que força de vontade.
Está pedindo escuta, cuidado e acolhimento.
A psicoterapia pode ser o espaço onde essa escuta começa.
Um lugar seguro para compreender o que o seu corpo tenta comunicar há anos.
👉 Agende uma conversa e descubra como o processo terapêutico pode ajudá-la a se libertar da repetição e a reencontrar o prazer de se nutrir — de presença, e não de punição.